
Inovação
Inovação, startups e empreendedorismo sem complicação.
Informação para o próximo passoquinta-feira, 8 de outubro de 2026
O conceito criado por Henry Chesbrough em 2003 virou contratos, fundos corporativos e regras em lei. Veja como ele funciona e por onde uma empresa pequena pode entrar.

Nenhuma empresa, por maior que seja, concentra dentro de casa todo o conhecimento de que precisa para inovar. Essa constatação simples está na base da inovação aberta, um modo de trabalhar em que ideias, tecnologias e pessoas atravessam as fronteiras da empresa nos dois sentidos: entram de fora para dentro e saem de dentro para fora. Para quem tem uma startup ou um pequeno negócio, entender esse movimento ajuda a enxergar onde estão os clientes, os parceiros e o dinheiro.
O termo foi cunhado pelo professor Henry Chesbrough, da Universidade da Califórnia em Berkeley, no livro Open Innovation: The New Imperative for Creating and Profiting from Technology, lançado em 2003 pela Harvard Business School Press. Na definição que ele mesmo consolidou depois, inovação aberta é o uso intencional de fluxos de conhecimento que entram e que saem da empresa, para acelerar a inovação interna e para ampliar os mercados em que essas inovações podem ser usadas por terceiros.
O caso mais citado para explicar a ideia é o do centro de pesquisa da Xerox em Palo Alto, o PARC. Lá foram desenvolvidas tecnologias como a Ethernet e a interface gráfica com janelas e ícones, mas a empresa as considerou pouco promissoras para o negócio de copiadoras. Outras companhias levaram essas invenções ao mercado: a interface gráfica apareceu no Macintosh, da Apple, e depois no Windows, da Microsoft. A lição é que guardar conhecimento na gaveta também é uma decisão de negócio, e muitas vezes uma decisão ruim.
Vale separar os conceitos. O Manual de Oslo, referência internacional publicada pela OCDE e pela Eurostat e revisado em 2018, define inovação empresarial como um produto ou processo de negócio novo ou melhorado, que se diferencia de forma significativa do que a empresa fazia antes e que chegou ao mercado ou foi colocado em uso. A inovação aberta não muda essa definição: ela descreve de onde vêm os ingredientes e com quem a empresa divide o trabalho e o resultado.
A Procter & Gamble é um dos exemplos mais estudados. Em artigo publicado na Harvard Business Review em março de 2006, os executivos Larry Huston e Nabil Sakkab descreveram o programa Connect + Develop, criado para buscar fora da empresa ideias e tecnologias que pudessem virar produtos. Segundo o texto, o modelo já respondia por mais de 35% das inovações da companhia.
A LEGO seguiu outro caminho: em vez de buscar tecnologia, abriu espaço para os próprios fãs. Na plataforma LEGO Ideas, qualquer pessoa pode propor um conjunto; as propostas que reúnem 10 mil apoiadores passam por uma avaliação da empresa, e os autores das ideias escolhidas para produção recebem 1% das vendas do produto. É inovação aberta voltada ao consumidor, em que a comunidade ajuda a testar a demanda antes de a empresa investir na fabricação.
No Brasil, uma das faces mais visíveis da inovação aberta é o corporate venture capital (CVC): fundos ou estruturas de investimento de grandes empresas que compram participação em startups. Um estudo da consultoria EloGroup, feito com a ApexBrasil, a ABVCAP e a Global Corporate Venturing e divulgado em abril de 2026, mostra um mercado com menos operações e mais seletivo.
No período anterior, segundo o mesmo levantamento, tinham sido 135 rodadas, e 48 CVCs haviam investido. Ao mesmo tempo, os cheques cresceram: o valor médio das rodadas de série B saltou de US$ 7,4 milhões para US$ 34,6 milhões, e esse estágio passou de 12% para 27% das operações. Em outras palavras, as corporações estão fazendo menos apostas e preferindo empresas que já mostram tração. Segundo o NeoFeed, o país tem hoje 71 CVCs em operação, contra mais de cem no pico de 2021. Para o fundador em estágio inicial, a mensagem prática é que o investimento de uma grande empresa costuma vir depois de um relacionamento comercial, e não antes.
Esse relacionamento comercial é, de longe, a porta mais larga. No ciclo de 2024 do Ranking 100 Open Startups, plataforma que registra contratos entre startups e corporações, foram contabilizados 62.216 relacionamentos de inovação aberta, que somaram R$ 10,8 bilhões em contratos, alta de 69% sobre os R$ 6,4 bilhões de 2023. Os números são declarados pelas próprias empresas participantes do ranking, mas dão uma ideia da escala: 5.077 startups tiveram contratos validados naquele ciclo.
Parte da inovação aberta no Brasil tem apoio direto na legislação, o que dá segurança para empresas pequenas negociarem com grandes e com o setor público.
O Inova Simples tem tratado desses instrumentos em outras reportagens, como o guia sobre o Marco Legal das Startups e o editorial sobre o papel do BNDES e da Finep no venture capital.
Inovação aberta envolve assimetria de poder. A grande empresa tem jurídico, tempo e caixa; a startup, quase sempre, não. Por isso os pontos de atrito mais comuns são os mesmos: prazos de pagamento longos, exclusividade sem contrapartida, cláusulas de propriedade intelectual que transferem tudo para o lado maior e projetos-piloto que nunca viram contrato. A inovação aberta funciona quando os dois lados ganham com o fluxo de conhecimento, e isso precisa estar escrito.
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